Viciada em vencer, Susana aprende com Mundial difícil e sonha com 2016
Esqueça aquela história de que “o importante é competir”. Ela quer vencer. Subir ao pódio é o que tem em mente. Assim funciona a cabeça da paratleta Susana Schnarndorf. Mas se não dá para vencer ou pendurar uma medalha no pescoço, ela vive seu luto, mas sem abandonar os companheiros que precisam do seu apoio. Outra frase se encaixa melhor para falar sobre ela, e quem a diz é a própria nadadora: “Nada nunca foi fácil na minha vida”. Se você já escutou ou leu um pouco sobre a vida de Susana, há de concordar. Aos 47 anos e portadora da síndrome Shy Drager, doença degenerativa muscular, Susana viveu dias difíceis no recém-encerrado Campeonato Mundial paralímpico de natação, em Glasgow, na Escócia. Mas ela espera por dias melhores, assim como tem aprendido a perder sem abandonar a gana pela vitória.

- Esse Mundial foi bem difícil para mim. Com a evolução da doença, várias coisas que conseguia fazer, não consigo mais. Meus tempos aumentaram bastante, mesmo treinando mais ou o mesmo que treinava antes. Foi duro. Sou supercompetitiva e cair na piscina e não conseguir acompanhar as meninas foi bastante difícil. Mas encarei isso como um aprendizado. Nada nunca foi fácil na minha vida. Falei até para o meu filho: “estou tomando onda na cabeça, daí eu respiro e tomo outra onda”. É bom ganhar, mas a gente tem que aprender a perder também. Canto o hino quando os meus companheiros de equipe ganham porque acho que minha missão é não deixar a peteca cair. Mesmo estando triste, passo energia boa para eles - afirma.

Susana chegou na Escócia ciente de que não conseguiria nadar no mesmo ritmo de suas rivais na classe S6. Se no Mundial de Montreal, em 2013, ela ficou com o ouro nos 100m peito, dessa vez só chegou à competição pela convocação para o revezamento. Isso a deu o direito de competir nas provas individuais mesmo sem índices. Além da defesa do título, Susana nadou outras três provas, mas em nenhuma delas chegou à final. Restou o ouro no revezamento 4x50m livre 20 pontos, em que nadou apenas as eliminatórias.

A doença tem evoluído e colocará Susana numa nova classe no próximo ano. Ela estará na classe S5, onde, com os tempos que fez nesse último Mundial, poderá novamente brigar para ir ao pódio.

- De tempos em tempos tenho uma piora bastante acentuada. Com essa piora que tive de uns quatro meses para cá, perdi muito a coordenação motora e muita força. Quando estou nadando crawl, não sei onde está meu braço e onde está minha perna. Se rodo o braço, minha perna para de bater, se bato a perna, o braço para, parece que estou nadando em slide. Como nadei a minha vida toda praticamente sem ter nada, é muito difícil para mim querer fazer o movimento e não conseguir. É muita agonia que sinto vendo as meninas indo adiante e eu, tendo gás, parecendo presa dentro do meu corpo.

Mas isso é uma coisa que vou ter que me acostumar, como tudo que acostumei na vida, como a perda de movimentos. Estou naquele processo de angústia, de querer fazer e não conseguir. Agora estou elaborando minha reclassificação e vou competir na minha classe certa. Vou ser competitiva de novo e brigar por medalhas - avisa.

Apesar da tristeza pelo desempenho na água, Susana não deixava transparecer enquanto estava ao lado dos companheiros de seleção no Centro Esportivo Tollcross, em Glasgow. Da arquibancada onde estavam os paratletas, ela puxava a torcida brasileira com gritos de incentivo para cada um deles. Foi dali que se emocionou e quase perdeu a voz com o ouro de Joana Neves nos 50m livre S5, o único individual entre as mulheres do Brasil. Susana já havia protagonizado o mesmo momento em Montreal.

- Mulher tem muita competitividade, “ciúmes”. Sou mais velha e lido bem com isso. Me emocionei vendo ela ganhar a prova, gritei como uma louca quando ela chegou. Ganho um pouquinho junto com elas.

Minha tristeza diminui um pouco de vê-las felizes e ganhando as provas. A gente dá muito abraço de felicidade e dá abraço de tristeza também. Me encontrei numa função de ajudar, se vejo alguém triste vou lá dar uma palavra de consolo. E vibro e choro de felicidade com quem está feliz. Quando entro no quarto, vivo o meu luto, tiro minha máscara de feliz e passo por esse processo. Não é bom perder. Dava 1m40 de peito no ano passado e hoje estou fazendo 1m55. Foi uma queda muito grande, tenho que absorver isso. É tudo novo e difícil. Todo mundo fala: “Você é superforte”. Mas choro, fico triste, chorei várias vezes na piscina. Vou soltar (a musculatura na água) e choro na piscina para ninguém ver - revela.

Ex-triatleta com 13 participações em Ironman, a gaúcha Susana Schnarndorf tem um objetivo em mente: ser medalhista paralímpica diante dos filhos no Rio de Janeiro, cidade que hoje é a sua casa.

- É o sonho da minha vida participar das Paralimpíadas do Rio e ganhar medalha. Se subir no pódio não precisa acontecer mais nada na minha vida. É uma coisa muito forte que tenho desde criança participar de uma Olimpíada e ganhar uma medalha. Em Londres (2012), fiquei em quarto lugar por poucos centésimos. Não que seja ruim, mas foi aquela frustração de não subir no pódio.

Acho que está tudo guardado para o Rio. Tem uma coisa grandiosa para acontecer no Rio de Janeiro, fico até arrepiada quando falo. Meu filho mais velho me ajuda muito. Ele fala: “mãe, fica tranquila que a gente vai estar lá chorando junto contigo quando você ganhar a medalha de ouro no Rio de Janeiro”. É um sonho ousado, difícil, mas é um sonho de todo mundo que gosta de mim, um sonho da minha família, dos meus amigos, de gente que eu nem conheço. O mais importante é que, de alguma maneira, consigo inspirar algumas pessoas que têm problemas de saúde.

Vou estar nas Paralimpíadas lutando por elas também, para que vejam que a gente ama o que faz. Digo que a gente não pode nem por um segundo pensar que não vamos conseguir. A energia que trazemos junto com a gente é muito grande.

Mas antes das Paralimpíadas, Susana ainda embarca numa nova viagem internacional. Ela estará no início do próximo mês em Toronto, no Canadá, para a disputa dos Jogos Parapan-Americanos, que começam no dia 7 de agosto.

- Estamos montando com o Léo (Tomasello, técnico-chefe) um esquema de filmar, ver se dentro dessa minha piora consigo nadar um pouco mais confortável, ver o que posso fazer para não sentir tanto isso. Agora é bola para frente - concluiu a nadadora.

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