Ex-triatleta dribla doença degenerativa e o tempo por ouro na Rio-2016
Susana Schnarndorf é daquelas pessoas que nasceu com o esporte no sangue, a ponto de colocar suas bonecas em um pódio imaginário na hora da brincadeira. O vício em treinar e competir foi tanto que a levou a fazer três modalidades em uma: o triatlo. Mas imagine o que é para uma pessoa que corria, pedalava e nadava todo dia ficar paralisada e entregue a uma doença generativa. Mãe de três filhos, a gaúcha viveu um drama por conta de uma rara síndrome e foi com a ajuda de seu velho amor pelo esporte que se safou e virou candidata a medalhar na Olimpíada do Rio, em 2016.

Uma veterana de 13 edições do Iron Man e com o Pan de 1995 em seu currículo, Susana se viu lá pelos 38 anos de idade enfrentando dificuldades pelas quais nunca tinha passado: "Minha musculatura foi toda paralisando, não conseguia engolir nada, sufocava toda hora, fiquei com o lado esquerdo quase totalmente paralisado. Como eu era atleta, foi muito complicado, e eu tenho três filhos. O maior medo de uma mãe é faltar para os filhos, então foi uma época muito difícil para mim", relembra ela, hoje uma nadadora paraolímpica da classe S6 – categoria que ainda pode mudar até 2016, se seu estado piorar, influenciando nas chances de medalha.

Não foi apenas a perda dos movimentos que afetou a gaúcha, mas principalmente a falta de um diagnóstico definitivo. "Comecei em 2005 e até 2009 fiquei parada, cada vez piorando mais. Foram anos para descobrir. No início falaram que eu tinha um tumor no cérebro, depois que tinha esclerose. Tive vários diagnósticos, foram anos bem difíceis. Em 2009, comecei a fazer um tratamento com um coquetel de remédios, sem saber se ia dar certo, e comecei a dar uma melhorada, até ter uma vida relativamente normal de novo", conta Susana.

Os médicos descobriram que ela tem uma síndrome degenerativa chamada Shy-Drager, uma doença muscular que afeta também pulmão e coração e dá uma expectativa de vida de apenas 15 anos.

Nos quatro anos em que sequer sabia o que tinha, a depressão acometeu Susana. Sem conseguir se movimentar, ela viu os filhos irem morar com o pai, já que não podia cuidar deles, e a falta do esporte foi um sofrimento. Ao ser medicada corretamente, enfim um novo horizonte se abriu a ela. E a evolução foi muito mais rápida que a gaúcha poderia imaginar.

Para a sua sorte, o esporte foi a principal recomendação médica para recuperar boa parte dos movimentos. A piscina virou seu habitat natural, com a água possibilitando usar seu corpo com muito mais facilidade. Daí para ser uma nadadora paraolímpica também foi fácil, já que ela treinava ao lado da seleção brasileira no Rio.

"Com os vários medicamentos que tomo, consigo ter uma vida melhor. E o paradesporto mudou minha vida. Eu fui de uma fase muito triste, deprimida, abalada e em três meses era campeã brasileira, estava sendo convocada para uma seleção de novo, então o que parecia um fim foi um começo muito mais especial para mim", diz ela, que hoje treina cerca de seis horas por dia, em São Caetano do Sul (SP). Nos fins de semana, viaja ao Rio para ver os filhos. O esforço vale a pena.

"A natação é tudo para mim. Cada vez que termino uma prova ou um treino, isso significa minha vida, não só uma medalha. Se eu não nadasse, estaria bem pior ou nem estaria aqui. A natação é meu combustível", define Susana.

Lições e corrida para 2016

A nadadora que aguenta três horas de treino aparenta certa fragilidade ao deixar a piscina. Afinal, a lista de sintomas da síndrome que possui é grande: "tenho rigidez muscular do lado esquerdo do corpo, baixa capacidade respiratória, baixa coordenação motora, distúrbio de sono, movimentos involuntários, várias coisas... O que mais me incomoda é a respiração."

Como a doença é degenerativa, Susana sabe que uma piora pode mexer com suas chances de medalha na Paraolimpíada. Ela primeiramente foi classificada na categoria S8 – mais próxima da categoria para atletas com menos problemas, a S10. Em 2013, com movimentos mais limitados, foi para a S6. Nesta, foi campeã mundial nos 100 m livre, resultado que a levou a ganhar o Prêmio Brasil Olímpico como melhor paradesportista entre as mulheres em 2013.

"Prefiro não pensar em qual categoria que eu vou estar, penso em treinar e estar pronta qualquer que seja, isso é o principal", diz ela, sobre 2016.

Mais do que imaginar qual será sua categoria, Susana sabe que o impacto da síndrome é sentido na pele. Após anos lidando com esta situação, ela tem seus métodos para ignorar o sofrimento.

"O triatlo mudou minha vida. Mas tento não ficar com saudade das coisas que não posso fazer, agradeço ao que ainda posso. Às vezes eu tenho meus dias ruins, como todo mundo. Acordo meio "por que comigo?". Mas tento ver sempre o lado bom, porque isso me trouxe muita coisa boa também. Quando entrei no desfile da Paraolimpíada de Londres falei: 'putz, olha onde que eu estou'. Acho que tudo valeu a pena", diz ela, antes de concluir:

"Tento viver sem pensar muito na doença. (Tento) não viver para a doença. A doença vive comigo, mas eu não vivo para a doença."

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